Livros de história para não historiadores

Eu sempre gostei de História. É como cinema na vida real. Mas tinha uma coisa que eu nunca gostava: no colégio pelo menos, e especialmente em cursinhos pré-vestibulares, a história é sempre ensinada como fato e consequência, com um distanciamento do lado pessoal das entidades envolvidas, afinal, não interessa se Dom João gostava de comer asinhas de galinha com manteiga, interessa é se ele modernizou o Brasil, as consequencias de suas decisões, etc.

História ensinada assim não me encanta, porque se perde o fator cinematográfico e tudo se transforma numa sucessão de fatos e datas que somos obrigados a decorar na escola.

Eu já tentei ler livros mais aprofundados sobre História do Mundo. Por exemplo, já tentei ler livros de Eric Hobsbawn. Tentei, porque nunca passei de 50 páginas. Pra mim, são livros de historiador profissional, eu sou historiadora de fim de semana, que gosta de história como estória.

E é por isso que eu gosto tanto dos livros 1808 sobre a vinda da família real para o Brasil, quanto o 1822 sobre a Indepêndencia, ambos escritos por Laurentino Gomes, que talvez por ser jornalista, e não historiador, consiga fazer livros mais agradáveis de ler. Agradáveis não (só) por serem mais fáceis, mas por se aprofundarem na vida dos personagens, por tentarem descrever a personalidade dos reis, príncipes e demais envolvidos, e como isso afetou e influenciou em suas decisões.

Livros escolares sempre me passam a ideia que não importa muito quem está no poder, só os acontecimentos, que Dom João, Dom Pedro I e Dom Pedro II tem personalidades parecidas e só muda a época de reinado. Que se tivessem personalidades diferentes, isso pouco afetaria os rumos da história, pensamento completamente equivocado.

E só com um livro desses eu descobriria que a Imperatriz Leopoldina era nerd! Não gosto muito de samba ou carnaval e não torço por nenhuma escola de samba, mas se for pra torcer, é Imperatriz Leopoldinense na cabeça : P

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O retrato de Dorian Gray, um livro sensacional

Dorian Gray é um cara de uns 18 anos bonitão, perfeito, daqueles que todo mundo acha bonito. Unanimidade total. Tipo, sei lá, algum desses 7 homens. Ainda por cima, o cara é ricaço, podre de rico. Aristocracia total. O único porém, é que ele é super bobinho e ingênuo.

Ele tinha um amigo, um pintor chamado Basil Hallward. O Basil era legal e tal, mas era meio chatão as vezes, especialmente quando pintava. O Basil não era um grande pintor, mas o Dorian Gray era tão bonito, que quando o Basil pintou ele, virou uma obra de arte na hora.

Enquanto Dorian posava, ele conheceu Lorde Henry Wotton, um cara intrigante, egoísta, hedonista e principalmente, convencido que sua visão está certa. Ele tem algumas opiniões no mínimo polêmicas. Daqueles caras que sempre tem uma respostinha pronta pra qualquer pergunta. Eu não concordava com quase tudo do que ele falava, mas nossa, as justificativas, a retórica e a argumentação dele eram ótimas. De longe, um dos melhores personagens que eu já vi. Uma pessoa definitivamente de pensamento tentador e perigoso.

Aconteceu que Henry acabou convencendo Dorian que a beleza é a coisa mais importante no mundo, afinal, passam os anos, e a beleza nunca deixa de ter sua importância, quem é bonito sempre é bem sucedido. Claro, a idéia do que é belo pode mudar, por exemplo, séculos atrás quem era gordinho era bonito, hoje quem é magrelo, mas o que importa é que, a despeito do padrão em vigor na sociedade, quem é bonito sempre consegue tudo o que quer. Na concepção de Henry, não importa se a pessoa é má, a beleza o expiará de todos os seus pecados.

Um dia, Dorian Gray observou seu retrato, e constatou, tristemente, que aquele retrato manteria aquela beleza juvenil para sempre ao passo que ele envelhecerá e aos poucos, será cada vez mais desprezado. Nisso, ele diz:

“How sad it is! I shall grow old, and horrid, and dreadful. But this picture will remain always young. It will never be older than this particular day of June. . . . If it was only the other way! If it was I who were to be always young, and the picture that were to grow old! For this–for this–I would give everything! Yes, there is nothing in the whole world I would not give!”

Traduzindo, algo como:

Que tristeza ! Eu envelhecerei, ficarei horrível, medonho. Mas esse quadro sempre se manterá jovem. Nunca será mais velho do que esse dia de Junho … Se fosse o contrário ! Se fosse eu que me mantesse jovem e o retrato que ficasse velho! Por isso, — por isso — Eu daria tudo ! Sim, não há nada no mundo todo que eu não daria por isso.

Ou seja, assim como em Fausto, Dorian daria até sua alma pele juventude eterna. O diabo não apareceu para assinar o contrato, mas o desejo dele foi igualmente atendido. E a visão deturpada de Dorian acabou o levando a cometer os mais horríveis pecados. Não foram poucos os que sucumbiram direta ou indiretamente por causa dele. E a cada pecado, o retrato se desfigurava cada vez mais, até se tornar algo irreconhecivel, amedontrador, nojento.

Não vou contar o final, tampouco os demais acontecimentos, porque esse livro merece ser lido. Além do mais, o livro tem pouco mais de 200 páginas, ou seja, pouca enrolação e nada cansativo.

Talvez o maior empecilho para ler essa obra seja o vocabulário. Eu considero meu vocabulário bem rico e teve um monte de palavras que eu simplesmente não sabia o significado. E isso que estou falando da tradução da obra, se tivesse tentado ler o original, em inglês, teria sido mais difícil ainda. Igual, acho que esse vocabulário rico e rebuscado combina totalmente com a temática da obra. Se para Dorian e Henry Wotton, a beleza é tudo, na literatura a elegância na escolha da palavra precisa e correta também é. Essa forma bela de escrever é uma rima visual perfeita com a temática do livro.

Embora a história do livro seja interessante, são os diálogos, especialmente os de Henry Wotton, que realmente o enriquecem. É a escolha de palavras, o texto. Além disso, a temática dele não fica nem um pouco datada. Podem até dizer que é uma crítica ácida a sociedade inglesa do século XVIII, mas o livro é muito mais do que isso, a crítica que nele se encontra é atual: a beleza realmente tem essa importância toda? Será que podemos culpar aquelas meninas cujo o maior sonho é posar nua na Playboy se o que a nossa sociedade realmente valoriza é isso mesmo, a beleza? Será que elas simplesmente não estão jogando conforme as regras do jogo? Se a garota é bela, porque aprimorar-se? Não é melhor uma vida hedonista, aproveitando os prazeres momentâneos sempre?

Esse livro já rendeu uma boa quantidade de filmes. Eu não assisti nenhum. Adaptar obras literárias para o cinema é sempre algo difícil, mas no caso do retrato de Dorian Gray a tarefa fica especialmente pior. Vejam bem, para a obra funcionar, Dorian Gray deve ser realmente belo, se para alguma pessoa, o ator em questão não for bonito o suficiente, a obra já perde grande parte do poder. A imaginação permite que o ator ideal e mais belo possível seja escalado para o papel. O mesmo vale para o retrato, como retratar um semblante realmente degradante ? São desafios difíceis e que vão ser desafiados novamente já que uma nova versão dessa obra está sendo filmada, para estrear em Novembro de 2009. No papel de Dorian Gray vamos ter esse ator, um tal de Ben Barnes, e no papel de Henry Wotton, Colin Firth ! Tô ansiosa por esse filme, to achando que realmente possa ser uma adaptação legal, embora o diretor, Oliver Parker não tenha feito nada de conhecido ou relevante, o elenco está bem interessante.


Dorian Gray


Henry Wotton

A metamorfose, de Franz Kafka

Haviam 5 motivos fundamentais para eu querer ler esse livro: é um clássico, é conciso (palavra mais bonitinha para curto : P), eu queria entender o que é o adjetivo kafkaniano, Kafka é da República Tcheca, o país com mais gênios por metro quadrado, e principalmente, o protagonista era um caixeiro viajante, e quem é cientista da computação, adora teoria dos grafos e caixeiros viajantes : P

O livro não enrola muito, já começa com Gregor Samsa, o protagonista, transformado numa criatura horrorosa. Nunca é dito exatamente que criatura é essa, mas na minha imaginação se trata de uma baratona gigante. Eis o início:

Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo de qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.

– O que aconteceu comigo? – pensou.

Não era um sonho. Seu quarto, um autêntico quarto humano, só que um pouco pequeno demais, permanecia calmo entre as quatro paredes bem conhecidas.

Depois disso, o livro narra as dificuldades de Gregor como inseto e principalmente, a atitude de seus familiares (e chefe) diante dele. Todos tratam ele mal, a única que trata menos pior é sua irmã. Tratam tão mal, que no final, quando ele morre, é um alívio, e a família pode finalmente progredir.


Senhor Kafka

Claro, há mil interpretações para isso: uma delas é que ninguém gostava de Gregor, e no momento que ele deixou de trabalhar e trazer dinheiro para casa, ou seja, tornou-se desnecessário, um fardo, todos começaram a odiá-lo. Outra interpretação é que gostavam dele, mas no momento que ele mudou aos olhos da família, passaram a renega-lo. Entre outras interpretações muito mais sagazes. Independente da interpretação que se tenha, é fato que a metamorfose do título é muito mais psicológica do que física, é a metamorfose na mente das pessoas que mudaram seu tratamento em relação a Gregor Samsa.

Eu assumo que não gostei do livro. Achei o começo ótimo, a transformação e a tensão de Gregor quanto como vai ser a recepção dos demais quando lhe verem transformado, mas depois desanimei, é sempre a mesma coisa, a família tratando mal e o Gregor sem saber o que fazer, sem grandes reviravoltas. Pode ser clássico, ter suas qualidades, mas não é meu tipo de livro.

O erro de Descartes

Para pensar bem e tomar decisões corretas é preciso manter a cabeça fria e afastar todos os sentimentos e emoções certo? Nada mais sábio do aqueles velhos conselhos como “mantenha a cabeça fria na hora de tomar essa decisão importante“, ou “não deixe que paixões interfiram no bom juízo“, correto? Errado.

No (ótimo) livro O erro de Descartes, do português Antônio Damásio, ele mostra que a ausência de emoção e sentimentos, na verdade, destrói a racionalidade ao invés de melhorar o processo de decisão.


Leia

Logo nos primeiros capítulos ele fala sobre um dos casos mais famosos da neurociência: Phineas Gage. Phineas Gage foi um australiano que viveu em meados do século XIX. Segundo relatos da época, ele era um homem muito gentil que trabalhava na construção de ferrovias. Após um acidente em 1848, envolvendo explosivos, uma barra de ferro atravessou sua cabeça. atingindo o cérebro (parte pré-frontal). Felizmente ele foi socorrido na hora e conseguiu sobreviver. Mas ele não só sobreviveu como não ficou com nenhuma sequela aparente (exceto por um olho que ele perdeu). Visão, fala e movimentos perfeitos. Entretanto, logo depois de recuperado, Phineas Gage teve seu comportamento completamente alterado: começou a usar palavrões, fazia comentários cruéis desnecessários, tratava mal as pessoas, e fazia péssimas decisões que não levavam em conta as consequências. Morreu pouco mais de 10 anos depois pobre e sozinho. Na época, um médico estudou o seu caso, e é graças a ele que temos todas essas informações.

O caso Phineas Gage é importante pois foi o primeiro caso que mostrou que emoção e comportamento estão sim associadas a uma parte específica do cérebro.


Reconstituição da passagem da barra de ferro no cérebro de Gage

No livro, Damásio ainda fala de um caso semelhante ao de Phineas Gage que ele teve a oportunidade de estudar, o caso de Elliot. Elliot sofreu um acidente semelhante ao de Phineas Gage, demonstrando os mesmos sintomas. Damásio aproveitou a chance para estuda-lo. Fez diversos testes de QI, além de outros tipos de testes de inteligência. Surpreendentemente, Elliot se saia muito bem, às vezes melhor do que a média da população, provando que era dono de um intelecto saudável.

Ao longo da convivência com Elliot, Damásio se deu conta que Elliot contava sobre a tragédia da sua vida de forma impassível. Com o passar do tempo, notou que Elliot quase nunca se zangava, nem se incomodava com as milhares de perguntas repetitivas de Damásio. Num outro teste, foi colocado estímulos visuais carregado em frente de Elliot como: pessoas se afogando, incêndios terríves e terremotos horríveos. Nisso, Elliot, impassivo, fez um comentário que abriu os olhos de Damásio: sinto que meus sentimentos mudaram após o acidente. Ou seja, Elliot se deu conta que coisas que antes lhe causavam emoções fortes, agora não lhe causavam nenhuma reação, nem positiva, nem negativa.

Imagine que sua comida favorita, a música que você mais gosta, seu filme predileto, nada disso te desperta mais nenhuma emoção. Você agora está para sempre destituido da possibilidade de curtir o que você gostava, e ao mesmo tempo, consciente de que aquilo outrora te divertia. Em suma, o estado de Elliot pode ser resumido como saber mas não sentir.


Capa da edição brasileira publicado pela Companhia das Letras

De fato, segundo Damásio, nenhuma emoção era muito intensa em Elliot, nem tristeza nem alegria. tanto o prazer como a dor pareciam ser de curta duração.

Essa falta de sentimentos leva o doente a não se importar muito com a sua decisão e portanto, fazer decisões ruins.

PS: O livro se chama o erro de Descartes porque Descartes acreditava que o corpo era separado da mente. A mente só precisava do corpo para poder funcionar, fora isso, não havia nenhuma conexão entre eles. Mas Damásio acredita justamente o contrário, que corpo e mente estão intimamente conectados: a mente comanda o corpo inteiro, mas são as sensações que o corpo manda para mente que induzem a mente funcionar daquela maneira, contrapondo o dualismo cartesiano no qual a alma (razão pura) é independente do corpo e das emoções.

Aqui outros comentários sobre o livro. E aqui um entrevista com o autor, que também é neurologista e professor, publicado na revista Superinteressante. Aqui uma matéria sobre o caso, da Super também. E por fim, a quem interessar possa, o crânio de Phineas Gage e a barra que atingiu sua cabeça (originais, não são cópias) estão expostos no Warren Medical Museum, na Escola de Medicina de Harvard.

E obrigado ao Rafael Kurama, que me emprestou o livro : D

Razão e Sensibilidade

Um dos livros que li ano passado foi Razão e Sensibilidade (no original, Sense and Sensibility, nome muito mais poético), da inglesa Jane Austen. Quando li sobre o que se tratava o livro, me interessei imediatamente: duas irmãs, Marianne e Elinor Dashwood vivem na inglaterra do século XVIII. Logo no início do livro, o pai delas morre, e assim elas ficam com poucos recursos (A.K.A pobretonas). Marianne é a mais sensível (a sensibilidade do título), Elinor é a mais racional (logo a razão).

Mas então, era um romance, com uma personagem principal com o nome parecido com o meu que se deixa levar pela emoção (tal como eu) e interpretada pela Kate Winslet no filme homônimo (a Kate Winslet é uma das atrizes que eu permitiria que me interpretasse : P).

Mas ao começar a ler o livro, decepção: é chato chato chato chato chato. Mesmo assim li o livro até o final.

razao e sensibilidade
A Razão e a Sensibilidade juntas

Mais tarde, resolvi assistir ao filme. Foi dirigido por Ang Lee, o mesmo do Segredo de Brokeback Mountain, e concorreu ao Oscar 96. O filme é bem feitinho, mas mesmo tendo o Hugh Grant (que descobri recentemente que estrela vários filmes que eu gostei), continua chato porque, como era de se esperar, segue fielmente a história do livro : P, e além disso, o final é mega corrido. De repente, personagem x do nada se apaixona por personagem y e se casam, sem muitas explicações.

Mas o filme tem uma coisa muito legal: o ator Alan Rickman. Eu adoro ele, adoro a voz dele, e é incrível como ele consegue convencer em papéis tão diferentes: ele já foi o vilão de Duro de Matar, o cara que se apaixona por outra em Simplesmente Amor, o Severo Snape de Harry Potter, e agora o cara sensível de Razão e Sensibilidade.

Coronel Brandon
Alan Rickman como o coronel Brandon

Depois dessa obra, fiquei meio ressabiada em ler/assistir outras obras da Jane Austen. Mas já estou com o filme Orgulho e Preconceito em casa (peguei emprestado), que também é baseado numa obra dela, tomará que seja melhor.

As viagens de Gulliver de Jonathan Swift

Tá ai um livro que eu gostei. Romance inglês com descrições muito verossímeis sobre os mais absurdos lugares. Tudo regado com muitas e muitas sátiras. Ao contrário do que muitos pensam, Lemuel Gulliver não viajou apenas para a terra dos pequenos, Liliput (onde há a famosa discussão com o povo de Blefuscu sobre qual é o lado mais fácil de quebrar um ovo), além de ser o lugar onde Gulliver torna-se o bombeiro mais não convecional do mundo. Tampouco viajou somente para a terra dos gigantes (Brobdingnag). Ele visitou diversos outros lugares imaginários ainda mais interessantes.

Um desses lugares é Laputa. Laputa é uma ilha voadora cujo povo só se interessa pela matemática e pela música.

Depois Gulliver segue para a capital da ilha de Balnibarbi chamada de Lagado. Nessa cidade existe uma academia, no qual são pesquisadas as coisas mais loucas do mundo (como máquina que transforma dejetos humanos(A.K.A coco) em comida de novo!). Devido ao exagerado investimento em pesquisa, a população vive num estado de muita pobreza. Na minha opinião a viagem por Lagado é a parte mais legal do livro.

gulliver
Leiam

A próxima viagem é para a ilha de Glubbdubdrib. Nessa ilha, o rei tem o poder de ressucitar por 24 horas qualquer pessoa. Gulliver torna-se amigo do rei e aproveita para conversar com diversos filósofos.

O próximo lugar estranho é Luggnagg. Nesse lugar, existem algumas poucas pessoas que são imortais. Gulliver fica impressionado, achando que estes devem ser os habitantes mais inteligentes do mundo, mas acaba descobrindo que não é bem assim.

A última viagem é para a terra dos Houyhnhnms e dos Yahoos. A partezinha que eu menos gostei e que mais demorei pra terminar de ler. Nessa terra, os inteligentes são os Houyhnhnms, criaturas semelhantes a cavalos, e os incultos são os yahoos, criaturas semelhantes a seres humanos. Gulliver aprende sobre as características dos Houyhnhnms: criaturas que vivem pelo bem estar comum de toda a espécie e que não sabem mentir. De longe, o país que mais agradou ao narrador.

Apesar de tantos lugares descritos, o livro não é muito grande, são mais ou menos 300 páginas, sem muita enrolação. Vale a pena.

Madame Bovary

Obra francesa de 1857, umas das precursoras do realismo e polêmica na sua época. Muito triste e muito bem escrito. A premissa é simples, tipo uma novelinha mesmo. O que marca é como o autor transmite os sentimentos dos personagens, a forma como ele escreve a situação desesperadora que a protagonista se encontra. Eu nunca tinha lido um livro com frases tão bem colocadas. Claro, algumas partes do livro são bem entediantes, especialmente as descrições dos lugares e o final que me desapontou um pouco, não pelos acontecimentos em si, mas pelo final ter ficado arrastado e inferior ao resto do livro. Mas ainda assim, vale MUITO a pena. Pretendo ler de novo em breve, e quem sabe com o livro fresco na cabeça, escrever uma análise ou um textinho melhor do que esse : P

Então, o romance conta a história de Emma, moça criada no campo. Pessoa boa, mas ambiciosa até os ossos. Sonha com uma vida de luxo. Casa-se, por paixão, com Carlos Bovary (ou Charles, depende da tradução), um médico interiorano limitado, entediante e, ao contrário da protagonista, sem grandes ambições. Carlos era realmente apaixonado por ela mas a impossibilidade de dar a vida que ela almejava leva a protagonista a manter relacionamentos fora do casamento.

Capa igualzinha ao livro que li

O livro rende muitas discussões. O narrador é sempre isento. Emma Bovary é egoísta e fútil por achar que a felicidade está numa vida de sofisticação e poder. Mas ela tem culpa disso? É justificável o comportamento dela? Ela teria outra saída, numa época em que as mulheres não tinham possibilidade de ascender ? E o (péssimo) comportamento dela em relação a sua filha e marido? Só lendo para (talvez) tirar uma conclusão.

Altamente recomendado ! 6 estrelas de 5 possíveis (e não, não está errado :P).

Só mais um adendo. O autor, Gustave Flaubert, ao contrário de Machado de Assis, por exemplo, não era nada prolífico. Flaubert escreveu pouquíssimos livros. Sua obsessão pela palavra perfeita, la mot juste, fazia ele ficar anos escrevendo e reescrevendo o mesmo livro (talvez apenas faltasse um bom empresário ou editor pa ele liberar logo as obras: P). Só Madame Bovary levou 5 anos para ser escrito. Sorte nossa. Antes uma Madame Bovary do que mil livros bons ou regulares.

Pra finalizar, aqui e aqui, textos bem interessantes sobre o livro.